Tuesday, July 22, 2008

Diário do Jogo 6

Diário do Jogo é uma rubrica do percurso e acontecimento do Jogo observado na vida de todos os dias. Refere-se sempre ao dia que passou.

Tarde
- Jardins do Palácio de Cristal, entrada da biblioteca, crianças (5-6 anos) em visita de estudo (?) enquanto educadoras/professoras conversavam entre si:
chutam bola em saco de plástico no chão
chutam bola das mãos de um que segura, como uma pera de pugilismo
chutam bola já sem saco de plástico
e, por fim, chutam saco de plástico e vão embora
(tudo isto enquanto um deles, que não jogava, saltitava para lá e para cá numa só perna dado que a sua sandália de dedo se estropiara e agora já não segurava dedo nenhum);

Noite
- à frente da Igreja do Marquês, em círculo, cinco a seis crianças e duas mulheres (mães?) atiram vagamente flácida bola de praia de uns para outros, principalmente ao pontapé; rapazes de peito nu, sentados no muro, não jogam mas parecem fazer parte do conjunto;

Fim da Noite
- casal jovem vai pela rua fora, ela com uma bola de futebol no braço.

Moral da história: foi o dia em que o universo jogou à bola.

Friday, July 18, 2008

Diário do Jogo 5

Diário do Jogo é uma rubrica do percurso e acontecimento do Jogo observado na vida de todos os dias. Refere-se sempre ao dia que passou.

Manhã
- criança em parque de jogos no alto de uma construção chama outra, miando:
miauuuu!

Tarde, no pico do calor
- crianças pré-adolescentes de calções mergulham em fonte e chapinham na água retida no chão; depois irão andar de bicicleta pelos passeios;

Fim da tarde
- rufia sobe rua atirando ao ar, ou de uma mão para a outra, o telemóvel em manobras cada vez mais arriscadas, cada vez mais alto ou cada vez mais furtiva a mão a fugir ou a vir apanhar o objecto.

Wednesday, July 2, 2008

Breve comentário sobre a noção de estado criativo

Estado criativo é uma noção de Konstantin Stanislavski, que se refere a ela sobretudo no livro O trabalho do actor sobre si mesmo no processo criador da vivência (tradução do russo) também editado como A preparação do actor, ou An Actor Prepares.

Mas de que se trata afinal este estado criativo?

Todos já experimentámos a resolução vinda não se sabe de onde, a ideia súbita, a tirada espontânea, o entusiasmo de ideias, a conversa que não mais acaba.

Todos já o experimentámos em idade adulta e mais ainda na infância: uma brincadeira que acaba só quando o sol se põe, a construção de uma casa na árvore, uma expedição, uma caça ao tesouro, uma disputa entre rapazes e raparigas; de tudo isto emergiam mais ideias, engenho, respostas a necessidades que, na verdade o eram apenas no contexto fantasioso do jogo.

Este estado de ideias emergentes, esta gravidez de iniciativas e conjecturas e raciocínios e estratégias e cenários possíveis será o estado criativo.

Acontece quando acontece, mas também quando ajudamos a que aconteça.

Do mesmo modo que ajudamos a que aconteça numa criança se lhe oferecermos um carro ou uma boneca (para citar os mais basilares) também ajudaremos a que aconteça num adulto se lhe oferecermos, por exemplo, a situação de lutar pela sobrevivência num jogo de paint-ball, onde tudo está em jogo, porque tudo é fantasiado.

É como se fosse uma luta a sério, do mesmo modo que uma boneca é como se fosse um bebé que precisa de cuidados, ou como se um penedo fosse mesmo um castelo e precisasse de ser protegido, ou como se o mapa acabado de “descobrir” fosse mesmo um mapa que levasse mesmo a um tesouro. E assim por diante.

O estado criativo é um estado de como se fosse real o irreal, o fantasiado. É um estado de jogo dramático. É um estado de jogo.

No jogo, como nos diz Roger Callois no seu Os Jogos e os Homens, há uma outra consciência, um outro tempo e um outro espaço; jogamos enquanto for mantida, preservada, assegurada essa outra consciência. E assim tudo será possível, dentro dos limites do jogo.

Como com a entrada num jogo, a entrada no estado criativo não pode ser feita de qualquer modo. Não somos interruptores. Não poderemos criar por somente nos dizerem Cria!, e não poderemos jogar porque somente nos dizem Joga!. Terá que haver algo lá dentro, de nós, que se envolva. Terá que haver uma sedução, um isco, um apetite que é despertado. Coisa simples. Coisa natural quando acontece, como dizíamos. Mas quando queremos que aconteça, teremos, como nos lembra constantemente Stanislavski, que obedecer às suas leis naturais. Ou antes, às leis da natureza do nosso estado criativo. Estas leis não podem ser contornadas, nem podem ser violadas. Sentimo-lo logo: jogar por obrigação não é jogar, é apenas compulsão; fantasiar forçado é-nos infinitamente mais custoso quando comparado com a efabulação imparável em companhia de amigos. É o fantasma da composição de Tema Livre. Estímulo nenhum corresponde a nenhuma resposta. Se há estímulo, e este terá que ser sempre de fantasia, então haverá reacção, resposta. Por exemplo, duas situações muito semelhantes, para que se lhe descubra as diferenças:

a) Zezinho mostra como brincas com os teus bonecos.

b) Zezinho como se chama este (boneco), o que faz ele?

Na situação a) foi o resultado que orientou a indicação, e, sempre que estas coisas estão orientadas por resultados o estado criativo não é convocado, não há como se; na situação b) entra-se dentro do que pode ser as regras deste objecto de fantasia (boneco), o que pode* convidar todo o resto, todo o processo que ponha em marcha a fantasia, portanto o tal estado criativo.

*Pode, provavelmente, porque nada é garantido. O estímulo A pode não dizer nada ao sujeito X por não ser específico, ou ser deslocado, ou ser má altura para brincar. É preciso haver ambiente. Mas uma coisa é certa: sem estímulo não se vai lá.

 

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