Há uns anos largos, estávamos nos primeiros anos de um curso superior de teatro, num tempo suficientemente longínquo para ser outro tempo, tivemos aulas com uma mestra do teatro: Polina Klimovitskaya.
Era uma grande senhora russa, encenadora, professora de criatividade do actor.
As suas aulas eram diferentes de tudo porque se baseavam em estímulos como animais ou até mesmo nas suas histórias ou nas histórias dos mestres russos que a antecediam.
Fazia assim uma ponte entre a história do teatro e a nossa pequena cidade do Porto - cidade em tudo só um pouco maior que as outras pequenas.
Esta professora orientava processos estranhos e longos, especialmente longos, e nunca como ali se via algum aluno a fazer algo que se separasse tanto da expressão mais evidente da sua personalidade, expressão que seria o ponto alto expectável em outras ocasiões, em outras aulas.
As suas eram aulas estranhas mas eram aulas onde acontecia sempre qualquer coisa, de onde saíamos diferentes, e sempre com a palavra arte especialmente sublinhada nas nossas cabeças.
Ora bem, esta professora não deixava de ser alvo de cretinice: adolescentes acabados de entrar numa escola a achar que na sua opinião de jovens - com a frequência de, no máximo, workshops ou encenador regional com carisma regional - aquilo devia ser de outro modo ou estava errado ou era místico demais ou o diabo a quatro. Temos então jovenzitos que falam desabridos com especial propriedade na sua in-cri-vel-men-te infundamentada opinião com uma senhora com idade para ser sua mãe, professora e directora de actores em vários países, doutorada por Yale, russa a falar de coisas russas que só poderíamos conhecer de livros e, em especial, dona de uma pedagogia sempre positiva e da imaginação do actor e do aluno.
E é este o ponto em que podemos afirmar, no nosso censo quase sociológico, que existe muita cretinice. Existe e existe e existe.
E se existia para esta mestra, infelizmente não podemos esperar outra coisa na nossa vida de professores, meros mortais que somos.
Polina dava sempre respostas inteligentes como mulher inteligente que era, tenhamos esperança de o tempo nos ensinar essa sabedoria e graça de espírito.
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Tuesday, March 31, 2009
Censo Quase Sociológico da Cretinice
Sunday, March 29, 2009
Augusto Boal & livro do dia

A propósito da mensagem do Dia Mundial do Teatro (que segue inteirinha mais abaixo) aproveitamos para apresentar o "Jogos para Atores e Não-Atores" como o livro do dia deste domingo em que o tempo, como o teatro constantemente, parece estar a mudar.
Mensagem do Dia Mundial de Teatro - 27 Março, 2009
Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver.
Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de idéias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!
Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática – tudo é teatro.
Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a platéia e a platéia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana.
Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa - nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.
Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - “Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida”.
Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.
Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida!
Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!
Augusto Boal
Friday, March 27, 2009
Dia Mundial do Teatro, Campo das Letras e Shakespeare
Hoje, dia 27 de Março de 2009, é Dia Mundial do Teatro. É como um aniversário de um amigo com quem temos (teremos?) uma relação estreita mas cujo dia de anos nos serve para fazer o telefonema próximo, mais camarada.
Hoje é o dia do Teatro, então o dia em que pensamos com proximidade e camaradagem no Teatro. Em todo o mundo se lê a mensagem do Dia Mundial do Teatro - que este ano é da autoria de Augusto Boal, teatrólogo, poeta, dramaturgo, encenador, ficcionista e pedagogo brasileiro e do mundo.
Este é portanto o dia do Teatro que se faz, fez ou fará.
É o dia do presente mas também do tributo aos três mil anos que nos antecedem, dos Ditirambos gregos às Casas Editoras que publicam teatro nos nosso dias.
Uma dessas Casas Editoras - Campo das Letras - sucumbiu recentemente. Editora do Porto, era a partir desta cidade que, para além de edição abundante em literatura para crianças, poesia, ficção e ensaio, também editava teatro. E é caso para dizer Que Teatro!
Além de autores nacionais, desde 2001 tinha com a Faculdade de Letras da Universidade do Porto o mais que interessante e urgente projecto de publicar ao obra dramática de Shakespeare: "Shakespeare para o Séc. XXI".
Editaram quatorze volumes do maior dramaturgo mundial. Quatorze, número apenas superado pela Lello & Irmão que há coisa de um século pulicara salvo erro todas as peças em uma tradução que podemos dizer pioneira mas não tão aturada nem tão criteriosa quanto a da Campo das Letras/Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Por muitas razões e por uma que as sintetiza e diz muito do que é tradução: o verso. Shakespeare escrevia sobretudo em verso e isso, para um acto de teatro, para o seu actor e para quem vê e ouve é importantíssimo. Esta nova edição, este Shakespeare que nos espreita do seu génio para o nosso Séc.XXI é um teatro que tem versos, que não é transtornada a sua prosódia em prosa.
É de assinalar, não o desaparecimento desta grande Editora, mas o grande que é e foi neste seu projecto, sabendo nós que estes quatorze livros já ninguém nos tira.
Viva!
Tuesday, March 17, 2009
"Menina Olímpia e sua Criada Belarmina" de José Régio, por Margarida Fernandes, na Fábrica
"Passeia, às vezes, pelas ruas centrais do Porto, ao cair da tarde, uma estranha figura"
Uma história tão delicada e tocante quanto próxima, passada na cidade do Porto. Neste Porto em que portas discretas escondem ilhas onde vive um mar de gente. Neste Porto burguês e conservador, popular e provinciano. Neste Porto antigo construído sobre granitos húmidos. Neste Porto de alienados, vadios e velhos sonhadores. Neste Porto vindo das tripas, que se entranha na pele e nos faz amá-lo.
A Menina Olímpia irá estar em cena nos próximos dias 20, 21, 22 e 27, 28,29 de Março, na Fábrica. A Fábrica fica no Porto, na rua da Alegria 341, um pouco acima do Centro Comercial Plaza: é subir, subir, atravessar a rua Formosa, subir, subir e encontram à esquerda a porta alta branca de metal. Melhor do que isto só um GPS.
O espectáculo, na sexta e sábado, começa às 21.30, no Domingo às 16.30. Apareçam, nem que seja para provar o vinho do Porto, os biscoitos e os figuitos.
Se decidirem entrar para ver o espectáculo, a entrada é de 3 euros.
Saturday, March 14, 2009
Crítica a "Fragments" de Beckett/Brook, no CCVF
Ontem o Minho foi um lugar abençoado. Não foi Lisboa, não foi o Porto, não foi mais nenhum lugar senão no Minho a cidade de Guimarães. Peter Brook era-nos trazido ao Centro Cultural Vila Flor (CCVF). Não era preciso ir a Paris ou a Londres para ver um criador internacionalmente eminente a fazer um autor universal, pois Guimarães deu-nos isso.
Uma equipa de inteligentes e diligentes programadores (e suas parcerias) deu-nos Beckett por Brook. E se isto era francamente chamativo por si, o que tivemos ontem foi a fama com o proveito.
Em primeiro lugar tivemos a oportunidade de ver um dos mais antigos encenadores em actividade, e um dos mais influentes - pelos seus livros por um lado, e pelas suas diferentes vias de criador, por outro (de Shakespeare ao indiano Mahabharata, da Royal Shakespeare Company ao tapete que se transporta e estende e é o espaço necessário para representar).
Em segundo lugar pudemos ver quatro das peças pequenas de Samuel Beckett (Rough for Theatre I; Rockaby; Act Without Words II, Come and Go) e um poema (Neither) feitos por três actores, que chegavam, se colocavam e começavam, peça após peça. Sem mais nada senão meia dúzia de objectos e a luz: uma cadeira, um bloco, um pau, um violino, sacos, e eles. O texto, as palavras e eles.
Diz Brook num dos ensaios de "There Are No Secrets" que ou existe logo algo que una espectador e actor ou o espectáculo se perderá. E foi precisamente essa união o que ontem aconteceu. Os actores entraram e uma faísca fez-se e estávamos nós, o público mais ou menos imigrado que fora a Guimarães, a acompanhar o pequeno tormento daquelas pequenas vidas tão dificeis de localizar, se aqui, se agora, se numa aridez histórica qualquer. Estávamos nós a acompanhar a crueldade com humor do Rough for Theatre I, a tensão e a pequena dor de Rockaby, a inacreditável "clownerie" de Act without Words II, o poema Neither como continuação de Rockaby e a pequena farsa final de Come and Go. Tudo (as peças, o poema) alternando numa ordem entre o que podíamos chamar cómico e trágico.
Provavelmente qualquer outra produção semelhante não teria sido tão feliz. Qualquer produção semelhante na malandrice com que esta brincou com o Beckett das tensões e didascálias, trocando mulheres por homens, vozes off por vozes on, paus horizontais por verticais, até mesmo acções por rotinas de "clown", talvez não fosse tão feliz.
Há dias aventávamos que não seria possível fazer-se Come and Go com actrizes jovens. E nem nos ocorreria pensar em homens. Mas não só o é (possível) com uns como com outros. E foi-o. A actriz Hayley Carmichael que havia estado pesando e pensando cada palavra em Rockaby, ou no poema Neither, como se desdobrasse um longo novelo de si, agora era (em Come and Go), de casaco posto, uma velha.
Que dizer também do cego de César Sarachu e da sua mão que tacteava ou dos seus olhos fundos e negros e inexistentes? Que dizer da perna que não existia também de António Gil Martinez? Que dizer desse grande número cómico do Act without Words II, com a plateia a rir-se e a - sem querer, como crianças - provar porque Beckett é extraordinário e não menos extraordinario Brook que o releva? Que dizer da sensação de gozo, de verdadeiro gozo em acompanhar esta peça e sentir com pena que a noite já tinha chegado ao fim?
Ontem era completamente claro que em Peter Brook não existe diferença ou desavença entre prática e teoria, portanto se o meu caro leitor pensar em ir ver este espectáculo, vá hoje ao Centro Cultural Vila Flor, ou então vá depois a Viseu. Se não puder ir e, para que tenha uma ideia, compre os seus livros, que lá estará tudo o que pode ser formulado, tudo o que pode ser dito do bonito encontro que aconteceu ontem.
Nota: A seguir ao espectáculo houve a oportunidade de vir a equipa criativa (actores e Marie-Hélène Estienne, colaboradora de Peter Brook) conversar com a plateia. Era uma oportunidade e como com tudo que o é, pode ser bem ou mal aproveitada. Ontem - como tem sido habitual em situações deste género - estivemos muito perto de ser uma oportunidade mal aproveitada.
Estas conversas (ou as suas intenções) têm sido costumeiras. Mas nestas ocasiões perguntamo-nos porque não são colocadas questões por pessoas de franca responsabilidade e saber. Cinco questões foram postas, todas elas por praticamente ou quase praticamente espectadores sub 30; na sala havia doutorados, professores, programadores e demais incógnitos, mas foram ou jovens profissionais ou estudantes a desencadear a conversa, a fazer as despesas da casa. Não se compreende. Torna-se a oportunidade de se conversar (o que afinal aconteceu, pelos juvenis meios acima descritos) num possível momento de embaraço, de embasbacamento nós olhamos para vocês e vocês olham para nós, até que alguém tenha a lucidez de acabar com isso e diga que já vai longa a noite.
