Daqui a algumas horas a cidade do Porto será percorrida por centenas de estudantes num cortejo. É o Cortejo dos estudantes.
Há dias morreu Augusto Boal combatente incansável e humorado das ditaduras, morreu às mãos da mais derradeira das ditaduras, a leucemia.
Há dias morreu Boal, numa data vizinha do 1º de Maio, onde tantas outras pessoas se manifestavam e corriam as ruas que hoje o Cortejo vai percorrer.
Há dias um grupo improvisado de cidadãos na sua maioria jovens, especializados e filhos da liberdade, manifestou-se na rua contra o facto de serem trabalhadores precários. Esta manifestação seguia no fim - na cauda - da outra muito maior das centrais sindicais.
Há dias percebi definitivamente que somos a geração que pôde emergir e verdadeiramente crescer depois de uma ditadura apenas para se ver a braços com ser precários, para se ver a braços com ser coisa nenhuma, uma especializada, investida, reflectida e livre coisa nenhuma.
Há dias morria Augusto Boal. Algumas pessoas sentiram que morrera um espírito livre, algumas pessoas lamentaram que a Terra tivesse ficado mais pobre de um dramatugo, professor, teatrólogo e encenador teatral. Algumas pessoas chocaram-se com a notícia como se tivesse sido de uma bomba na sua cidade natal.
Isto aconteceu há dias e hoje passa um cortejo de estudantes pelas mesmas ruas por onde se manifestavam os restos de uma geração.
Os estudantes vão passar e há dias eu achava que tudo isto era uma valente macacada e macacada era gritar pelas ruas, e a macacada das praxes, e a macacada dos trajes, e a macacada das "actividades académicas", e a macacada do queimódromo e a macacada das barraquinhas e a macacada das cervejas e a macacada dos meninos que estão à frente dos carros e que estão à frente das negociatas das cervejas e que estão à frente na macacada do número de matrículas, e da treta e da macacada dos doutores e dos caloiros que andam pelo chão para se darem a conhecer melhor e a macacada dos meninos e meninas que vão orgulhosamente ser vistos pelo INEM por estes dias.
Eu achava que tudo isto era uma macacada.
Mas agora percebo que a liberdade é também ser-se macacóide.
Há dias Augusto Boal foi a cremar, calculo que ao subir o fumo das suas cinzas no crematório todos os presentes tenham aplaudido, como na morte se faz às pessoas de teatro. Calculo que todos tenham aplaudido e que essa tenha sido a feliz revolução contra a última ditadura - ditadura de dentro de um homem só, com uma única vítima mortal.
Há dias ter-se-á ouvido aplausos numa cremação. Hoje ouvir-se-á um cortejo a passar.
Mas atentem como as palmas a um homem nobre ensurdecem tudo o resto.
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Tuesday, May 5, 2009
Boal, aplausos e o Cortejo
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