Monday, September 15, 2008

Stanislavski 70 anos depois, reincidindo

Ainda em Mês Stanislavski, recuperamos um outro texto que a ele alude, a propósito de uma peça que o não merecia, publicado originalmente aqui:

Platónov

Stanislavski contava que durante os últimos ensaios de uma das peças, ao sair do teatro já noite, viu nas cercanias uma multidão acampada, entre fogueiras e neve.

Perguntou porque estava toda aquela gente ali. Responderam-lhe que aquelas pessoas todas esperavam por uma senha com que pudessem ir à bilheteira tentar comprar um bilhete para a peça que ele ensaiava. Dizia então Stanislavski, ao ver aquelas pessoas que esperavam que algo maior lhes fosse dado, isto faz perceber a grande responsabilidade do artista: transmitir verdades profundas. Não se podia dar uma coisa qualquer a uma multidão que vencia assim o frio e as privações para assistir a uma peça de teatro, não se podia dar senão algo extraordinário e profundamente humano.

O tempo passou, Stanislavski morreu, a neve cobriu a sua sepultura e terá cobrido os anos que nos separam dele. A mesma neve que a multidão expectante vencia agora terá finalmente vencido as milhares de páginas da história do teatro. Tudo se cobriu de neve.

O mesmo Stanislavski que fizera uma revolução com as peças de Tchékhov jaz debaixo de anos e anos de neve e esquecimento. O Inverno para ele é longo e não se avizinha Primavera, mesmo agora passados setenta anos da sua morte e setenta anos da publicação na Rússia do seu livro.

O mesmo Tchékhov que, com as suas peças, permitira a Stanislavski fazer a revelação do profundamente humano, também jaz na neve, na neve antiga.

Mas esqueçamos o profundamente humano quando podemos ter o menos profundamente humano, quando podemos ter o que em nenhum domínio do conhecimento e arte seria admissível se tivéssemos no teatro a exigência que há em qualquer decente domínio do conhecimento e arte.

Mas porque haveríamos de ter exigência quando podemos ter pirotecnia ?

Porque haveríamos de ter arte quando podemos ter um encenador a exercitar a sua arte inventando lubricamente tanta coisa entre personagens?

Para quê sabermos que Stanislavski dava aos seus actores cenários em que eles pudessem criar, alimentando a sua imaginação criadora, quando podemos ter uma dezena de actores a fazerem saltos e saltitares de obstáculos durante toda uma peça?

Para quê lembrar o que é realismo se podemos ter melodrama e cenas e cenas preenchidas com loops tocados ao vivo duma mesma melodia?

Para quê saber-se que Stanislavski dizia que uma personagem demorava o tempo de uma gestação, que o actor era a sua mãe, o dramaturgo o seu pai e o encenador a sua parteira se podemos ter personagens instantâneas, que aparecem para falar, que só falam, que não existem e só falam, que não têm pensamentos, só falam, que não têm sentimentos, gritam, que não existem, falam, que gritam e falam, e mais nada?

Para quê conhecer-se Tchékhov, ou Dostoiévksi, ou Gógol, ou Tolstói se uma sociedade russa pode ser retratada como se as pessoas se rissem inexplicavelmente depois de cada frase, espasmodicamente, à medida que aprendíamos, mais uma vez, que na Rússia as pessoas suam somente da nuca, pois é aí que em todas as peças de Tchékhov se enxugam os actores?

Para quê saber-se das hierarquias, das nomenclaturas, dos graus, dos estatutos da sociedade russa do princípio do século XX se podem ser representados como qualquer mãe, pai, filho, marido ou mulher, como poderíamos ver na televisão, em produções que não têm nem a dimensão, nem a pretensão, nem o nutriente dramaturgico, nem o tempo de ensaio que esta?

Para quê sabermos que o actor é o veículo da encenação e que a sua imaginação é a sua arma e que a verdade é o seu objectivo se podemos ter outra coisa qualquer numa encenação que é um palpite e uma sequência de palpites, com actores a esforçarem-se no melhor do seu habitual, com verdade a acontecer apenas num árido punhado de situações e personagens de meia dúzia de minutos em quatro horas?

Para quê sabermos que ao realismo de Stanislavski foi contraposto o teatral de Meyherhold se podemos ter actores sem Possil, se podemos oscilar alegremente - e sem fazer as glórias de nenhum - entre o teatral e o realismo, às vezes simultâneo, sobreposto, às vezes tão, tão só o convencional, o inexplicável, o habitual convencional?

Para quê sequer inflamar o que seja se é isto que o dinheiro paga, se é isto que é possível fazer-se e se faz?

Para quê sequer falar de Stanislavski ou da cultura russa ou acentuar-se o primeiro o em Platónov quando ninguém explicou a estes actores que em russo o o não acentuado se diz como a e não a barbaridade de se ouvir numa mesma cena Platónov, Platonóv e Platónóv?

Para quê falarmos de Stanislavski se isto implica conceber-se sequer que existe não um modo de representar mas uma maneira de compreendermos como o actor representa, de modo a estimulá-lo a fazer aparecer o novo em si e nos outros?

Para quê falar se não há modo de demolir o supremo tédio de que esta peça é mais um tijolo, mascarado de muita outra coisa, de arrojo, de ousadia, de atrevimento, de ideia?

Para quê saber-se que Meyerhold dizia aos seus actores Escondam os fios da minha encenação, se o que temos é uma encenação que se mostra, uma cenografia que se mostra, uns figurinos que se mostram como uma actriz pode mostrar as pernas para vermos como são bem feitas?

Para quê existir uma Kristin Linklater que diz que a voz do actor deve transportar da sua sinceridade, se temos actores aos berros, actores a fazerem de actores e a fazerem das suas vozes voz de actor?

Para quê?

Para quê termos visto alguns destes actores fazerem no passado representações tocantes, se podemos vê-los agora fazerem figuras tristes, anedotas de si próprios?

Para quê tantos soundbytes, entrevistas, folhetos e folhetins sobre esta encenação e o seu encenador se podemos ter, no mesmo palco em que Eimuntas Nekrosius fazia arte com Tchékhov, no mesmo palco em que Declan Donnellan fazia arte com Shakespeare, quatro horas do melhor do pior, de um clássico em sequência tão vulgar, tão ostensiva, tão cheia de piscar de olhos a uma geração que melhor faria em instruir-se do que reclamar ter descoberto pólvora a cada nova peça?

Para quê termos sequer um teatro nacional se nunca na vida poderão medir-se não com os melhores da região mas - como seria o seu dever – com os melhores dos melhores, com Stanislavski?

Não nevou, mas deveria. Naquela praça deveria ter nevado muito. A neve deveria ter submergido soundbytes, e folhetos e entrevistas, e arrojos de caracacá, e todo um mundo que espera ansiosamente pelo dilúvio para que possa renascer.

Sessão de domingo, 26 de Julho de 2008, 16h
TNSJ, meia sala

Ditulis Oleh : Unknown // 6:48 AM
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