Saturday, October 20, 2007

A pistola de plástico

Era uma vez um rapazinho que, sem saber porquê, andava sempre com uma pistola de plástico.

A pistola fazia do rapazinho um guerreiro, assim como as adagas, ou as matracas, ou tudo que era brinquedo bélico, e eram-no exactamente isso: brinquedos.

A pistola sublimava a agressividade do rapazinho e acompanhava-o sob muitas formas, sob muitas formas de armas ou fantasias do género, e assim o rapazinho se sossegava e sentia magicamente que era forte e era alguém e que pertencia a algum lado; era esse o valor da pistola de plástico.

Da agressividade que a pistola disparava passou a despoletar ironia no rapazinho que agora era um jovem, um adultozinho. Como numa enorme partida, como com um enorme segredo, ao ter a pistola sem que ninguém soubesse. A pistola de plástico era um brinquedo, uma máscara, uma coisa mágica especialmente porque ele sabia-o e isso só lhe servia por servir a imaginação de filmes e bandas desenhadas. Filmes e filmes, e heróis e bandas desenhadas e heróis, e tudo o que era fatal e decidido, e actos heróicos, e tudo o que era importante e comovente. Como se tudo fosse tão importante, tão comovente quanto uma luta, tão decisivo quanto uma luta.

Mais tarde a pistola foi ficando de lado, assim como as revistas de banda desenhada (dezenas, centenas delas empilhadas, guardadas numa caixa de vime). A pistola de plástico, com o seu mágico guerreiro, tornou-se outras coisas, tornou-se as artes marciais e tornou-se inclusivamente o próprio uso da palavra.

O rapazinho tinha-se tornado incontornavelmente um jovem adulto, tinha ido estudar algo e ainda tudo lhe parecia como a própria pistola de plástico: fruto da sua imaginação. Tudo lhe parecia tão despoletador de ironia e fantasia quanto a pistola de plástico. Porque na verdade nada era possível assim, tão ao sabor do vento assim; tornou-se actor e talvez isto também fosse incontornável dado que funcionava tão bem em registo de fantasia. E não se deu conta, como quando andamos a brincar, do tempo a passar, como quando não damos conta que fomos andar de bicicleta até muito longe. Talvez tenha sido isso que aconteceu com o rapazinho quando, de tempos em tempos, dava-se conta que tinham passado mais dois ou três ou cinco ou dez anos.

E nesse tempo passado tinha arrastado consigo, trazido consigo, como quem traz preso a si inevitáveis silvas depois de andar de bicicleta, leituras, ou amores, ou algo tão comovente, ou outras pessoas heróicas quanto os super-heróis, outras pessoas com nomes estrangeiros, com uma força e vitórias sobre-humanas - como os super heróis dos filmes ou das bandas desenhadas - pessoas que eram grandes e poderosas, que era sabedoras (as maiores do mundo) que eram fortes (os mais fortes do mundo) que eram mágicas (as mais mágicas do mundo), que eram elas próprias símbolos, e eram admiração e comoção.

O rapazinho, agora adulto, depois de jovem adulto, tinha tido e encontrado ao longo dos anos novos heróis pelos caminhos por onde tinha andado, como quem compara cromos ("estes sim é que são os maiores"). Tinha brincado? Sim, tinha brincado, mas parecia que o mundo para o qual ele tinha sido convidado (ou onde ele se encontrava) não era bem o dele; parecia que qualquer tentativa em se adaptar custava imediatamente um preço muito alto; parecia que a própria imaginação, a própria ironia, ou ingenuidade, se retiravam para um canto longe, para outro lugar; parecia que o próprio amor às coisas ou às pessoas já não funcionava, como um motor gripado.

Anos passaram e o rapazinho, agora um homem, um jovem homem, deu por si (mais uma vez, por via da sua imaginação, ou quase) a aprender uma coisa que era nova para ele, a aprender para a ensinar: ensinar a jogar. E isso - como quando se lê um poema que diz o que sentimos sem que o saibamos dizer ou aperceber - parece que lhe foi dando de volta o que faltava, parece que lhe foi dizendo Isto aqui é o que tu és: jogo.

Não era nada mais senão a comoção, o divertido, o mágico; era pensar-se como criança, como rapazinho, como rapazinho com corpo e vida e inteligência de homem. Foi ao pensar JOGO, ao bater com a mão na cabeça, que disse É isto mesmo, é jogo o que andei a fazer e a perseguir estes anos e este tempo todo, é jogo, é jogo mágico de andarmos com pistolas só porque é divertido, de termos heróis e querermos ser como nos filmes e sermos mágicos e termos símbolos e nos comovermos com as pessoas e precisarmos do contacto e de andar de bicicleta uns com os outros.

Era o jogo. Portanto, passados muitos anos depois, a pistola de plástico voltou às mãos do rapazinho e ele percebeu porque havia uma pistola sob tantas formas.

Como uma solução que se percebe depois de matutar muito num enigma ou num problema, vinha-lhe sempre à cabeça: Caramba, era o jogo; afinal sempre tinha sido o jogo!

Ditulis Oleh : Unknown // 1:40 PM
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