Uma criança foge de um adulto que faz de Monstro, ela sabe que é brincadeira e foge e ri; ela gosta do susto e gosta que aquele seja um Monstro convencionado.
Este é um jogo e há aqui uma grande dose de simulacro: a criança e o adulto fazem de conta que quem persegue é um Monstro e que fará inevitavelmente mal ao perseguido quando e se o agarrar. Nunca se chega a causar mal, na realidade, pois isso terminaria o jogo dado que este é apenas um... jogo.
E o Monstro, ainda sob a forma de jogo, emergirá mais tarde. Já não será alguém tão diametralmente diferente quanto um adulto, mas ainda com assinalável diferença de estatuto. Em rituais de iniciação. Um desses rituais é o das escolas (mais ou menos de ensino superior): o Monstro continua temível, mas a perseguição é mais complexa. O jogo do Monstro tornou-se agora um ritual de iniciação, de passagem para uma idade adulta, para outro patamar, para a entrada numa sociedade, clube ou grupo.
Diz-nos Roger Callois, no seu livro Os Jogos e os Homens, que os rituais são jogos de máscaras, são jogos de simulacro. A personagem do iniciador é dotada de uma roupa, voz e comportamento diferente do normal, diferente até do seu intérprete, do homem que é possuído. Assume o carácter de Monstro, e representa a dificuldade e o segredo. Conduz a experiência de provação e medo até que se possa dizer ao iniciado Agora és um de nós.
O direito de pertencer ao mesmo grupo será também ele mais tarde o direito de poder fazer a personagem e ser o Monstro perante outros. Referia-se Callois aos arcaicos rituais tribais de passagem para a idade adulta e o mesmo podemos observar nos rituais das escolas de ensino superior, na chamada praxe académica. O medo é experimentado e as provas são passadas. O ritual de iniciação é novamente feito pelos mais velhos (e mais fortes/sabedores) aos mais novos (e mais fracos/ignorantes).
Esse ritual que, como a perseguição do Monstro referida no ínicio, a ser feito segundo as leis do jogo (voluntário, livre e de concordância mútua nas regras do jogo) tem neste contexto escolar uma implicação interessante: é um momento em que se explicita pela festa dos excessos o sempre latente Bullying. Com a novidade, no entanto, de aqui não se infligir o Bullying, antes jogar-se a ele.
(NOTA: Jogar-se-á ao Bullying SE houver consentimento mútuo, ou então SERÁ pura e simplesmente Bullying.)
Com o consentimento de ambas as partes joga-se à humilhação, à agressão e à submissão dos mais fracos aos mais fortes. Tudo feito entre os pares, como o Bullying.
Brinca-se - num espaço e tempo definido e com regras definidas (é uma espécie de Rei manda, gato e rato, gincana e faz-de-conta) - ao Bullying: o Monstro grita, esbraceja, veste-se e comporta-se de modo assustador, ameaça e manda. Mas o Monstro é um par do perseguido em idade e situação na hierarquia social, nada o distingue.
E o medo unirá os perseguidos, à maneira do filme A Vila de M. Night Shyamalan, para mais tarde poderem ser eles próprios perseguidores e fazer de conta que são o Monstro, vestir-se como ele e comportar-se como ele e conduzir as provações do jogo de iniciação a quem o queira jogar.
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Monday, October 22, 2007
Simulacro, Ritual, Praxe e Bullying
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