O jogo dramático, enquanto aprendizagem e prática de técnicas teatrais, opõe-se ao exercício, vejamos porquê.
A brincadeira, seja ela mais ou menos séria, não é um mecanismo exacto, é antes como que um animal, uma coisa viva.
E o jogo, como brincadeira, é isso mesmo: uma coisa com vida própria, que nasce, que tem de ser alimentada, que pode viver muito e que acaba inevitavelmente por morrer. Tudo isto podemos vê-lo em qualquer brincadeira ou jogo. Um jogo apetece e logo ganha vida. Um jogo torna-se aborrecido, então esmorece e morre e, se continua a praticar-se, passa a ser o seu outro extremo: trabalho.
A antinomia entre jogo e exercício é a mesma entre jogo e trabalho. Há algo em nós enquanto homens e mulheres que nos faz alternar o trabalho com o jogo, seja brincadeira espontânea ou um desporto regular. E por mais que digamos que o actor (o mais especializado e profissionalizado dos fazedores-de-conta) trabalha - ele, paradoxalmente, só poderá fazê-lo se esquecer (e for ajudado a esquecer) que trabalha. Pois sem jogo não há aquelas sinapses cerebrais caóticas que levam a novas combinações, a novas respostas, a novas fantasias, a um brilho nos olhos, à criatividade e à excitação (em maior ou menor grau) que leva a ela. Sem jogo haverá somente o trabalho. O faz-de-conta deixa de ser uma brincadeira adulta e passará a ser um simulacro de simulacro, um fingir que se finge. Um fingir que se brinca. Um fingir que se acredita. E há uma grande diferença de carácter e de riqueza entre faz-de-conta e fingimento. É que uma coisa é brincar e outra é mentir.

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